Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  Número 34, Novembro 2006 Entrevista

Cuidados odontológicos em pacientes de câncer

 

 

Daniela de O. Silva, Flávia A. de Oliveira,
Gabriela G. Ribeiro, estudantes,
Farmácia e Bioquímica, FEB

 

O Hospital do Câncer de Barretos, SP, mantido pela Fundação Pio XII mantém um Departamento de Odontologia liderado pelo Dr. Hélio Massaiochi Tanimoto e vem fazendo importante trabalho de atendimento e controle de problemas odontológicos e de construção de próteses faciais em pacientes com câncer.

Hélio Massaiochi Tanimoto formou-se em Odontologia na Universidade Estadual de Londrina há mais de vintes anos. É especialista em Periodontia, Prótese e Estomatologia. Há cerca de 20 anos atua no Hospital do Câncer de Barretos. Em outubro de 2006 ele concedeu esta entrevista a estudantes do curso de Farmácia e Bioquímica da FEB.

Q1. Qual a importância de um Departamento de Odontologia em um Hospital de Câncer?

R1. O Departamento de Odontologia tem sua inserção no hospital para contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos paciente, principalmente nos casos câncer de cabeça e pescoço.

Q2. Quais os efeitos da radioterapia sobre os dentes?

R2. A radiação interfere no tecido do tumor e também em células saudáveis que estão próximas a ele. Os dentes sadios, gengiva, mucosa e glândulas salivares são alterados pela radioterapia, diminuindo a evolução do tumor, a divisão celular e a divisão de outras células que estão próximas. Isso gera alguns problemas a nível de circulação, levando a um efeito de reparação menor, diminuindo a luz dos vasos sangüíneos, diminuindo a nutrição, a defesa, propiciando assim a infecção.

Com relação à mucosa a diminuição da divisão celular provoca uma sensibilidade maior e qualquer atrito que haja será mais irritante e mais dolorido.

A radioterapia afeta também as glândulas salivares, diminuindo o fluxo salivar, a lubrificação, aumentando o atrito e o trauma da mucosa contribuindo para a inflamação da mucosa (mucosite).

A saliva tem efeito tampão na cavidade bucal e isso faz com que toda a alimentação ingerida, dependendo da quantidade de bactérias nos dentes, produz um ácido. Como exemplo, o açúcar. Bactérias vão fermentá-lo produzindo um ácido, provocando a descalcificação do dente e ocasionando a cárie. Como a diminuição da saliva é muito grande, a incidência de cárie é maior, mais rápida e progressiva durante o tratamento, podendo ocasionar a perda dos dentes. Neste período não pode fazer a extração de nenhum dente devido à diminuição da divisão celular e à baixa nutrição pelo sangue, aumentando assim a chance de necrose óssea (osteoradionecrose). Sendo assim, a infecção acaba sendo pior do que a própria doença e é de difícil controle.

Q3. Quais os efeitos da quimioterapia sobre os dentes?

R3. Ao contrário da radioterapia que produz efeito permanente a longo prazo, o efeito da quimioterapia é mais momentâneo, durante o período da aplicação. A quimioterapia interfere também nas células tumorais e nas células próximas ao tumor. Todo o sistema de defesa do local é diminuído. Uma pequena infecção na boca passa a ser um problema muito grande do ponto de vista de disseminação.

Q4. Qual o procedimento adotado no protocolo de atendimento aos pacientes com câncer?

R4. Quando a indicação é a cirurgia são várias as condições a serem avaliadas e dependem de cada caso.

Por exemplo: um paciente com câncer de cabeça e pescoço que já vem indicado para cirurgia de remoção de língua, mandíbula e maxila. Avaliando se o caso deve-se questionar a respeito das estruturas a serem perdidas, a perda de função que vão causar no paciente: a fala e a mastigação dificultadas quando é removida a língua. E, além disso, há o aspecto físico, no caso a desfiguração (remoção da mandíbula).

Quando a indicação for a radioterapia, o paciente deve passar pelo Departamento Odontológico para a remoção de todos os focos de infecção futura e recebimento de instruções em relação à higienização e cuidados bucais, para que o paciente possa ter uma vida mais tranqüila.

Assim, o processo de atendimento tem alguns critérios que permanecem como prioridades. A primeira delas é relativa à ausência ou controle da dor de origem bucal ou dental, que deve ser avaliada para que o paciente tenha uma boa qualidade de vida.

Os protocolos a serem seguidos são vários e de acordo com as necessidades do paciente ou do setor para o qual ele está sendo encaminhado. Por exemplo, se o paciente estiver sendo encaminhado para um transplante de medula óssea, deverá ser verificada a medicação para imune-supressão, pois esta eleva o risco de infecção, o que se leva a aumentar os cuidados preliminares ao transplante.

Q5. Quais os tipos de próteses que sua equipe faz?

R5. As próteses faciais são de nariz, dentadura, orelha e boca, sendo todas móveis.

No caso de nariz remove-se o tumor reconstituindo-se o local. Pode-se fazer uma prótese facial, fixada num óculos, disfarçando-se relativamente bem a perda de parte da face.

A perda de estrutura bucal envolve a questão funcional. Por exemplo, em pacientes que removem a língua, mandíbula ou o palato, a prótese promove o retorno deste paciente à sociedade. Isso nos dá muita satisfação profissional.

Atualmente temos trabalhado com implantes para a fixação dessas próteses, colocando-se parafuso de titânio no osso para fixação da prótese. Esta é a mais nova tecnologia aplicada no hospital e não traz inconveniente ao paciente.

Q6. O que é reabilitação buço-maxilar?

R6. Essa reabilitação envolve estruturas bucais, maxila e mandíbula, envolvendo um complexo.

Q7. Qual a importância da reabilitação buço-maxilar?

R7. Esta reabilitação auxilia na questão psicológica, pois o paciente fica emocionalmente debilitado, e também auxilia nas questões fisiológicas, principalmente a mastigação.

Q8. Quais os problemas odontológicos mais freqüentes em pacientes que sofreramtransplante de medula óssea?

R8. Pacientes que foram submetidos a um transplante de medula óssea têm problemas são mais momentâneos, isto é, durante o tratamento, sendo mais vulneráveis a um risco de infecção, que pode levar à morte. Assim, infecções simples, como de gengiva e de dentes, nestes pacientes têm um efeito mais grave. Dependendo da idade, podem ocorrer problemas tardios. Por exemplo: em crianças, na fase de formação dental, a ausência de células de defesa ou diminuição na divisão celular nesse período, interfere na formação dental.

Q9. Quais as próteses para pessoas que sofreram mutilação em outras partes do corpo?

R9. Existem próteses de mãos, pernas e outras partes do corpo, mas o departamento odontológico do hospital não tem trabalhado nestas questões, dando maior ênfase para as partes do pescoço e cabeça.

Foi feita aqui uma restauração de parte de crânio. Através de uma tomografia, pode-se fazer a reconstituição da parte lesada, construindo-se um modelo, a partir do qual foi feita a prótese, posteriormente inserida no paciente.

Neste caso pode haver rejeição, mas é pouco provável que ocorra porque o material utilizado é resina clínica, um polímero à base de óleo de mamona, que é compatível e os resultados são satisfatórios.

Informe-se mais sobre o Hospital do Câncer de Barretos em http://www.hcancerbarretos.com.br