Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 23, Janeiro de 2004 Artigo

A História de São Paulo por suas Imagens

Henrique Ferraz
Estudante de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP - Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo
e-mail: henriqueferraz_arqurb@yahoo.com.br


A primeira missa de São Paulo de Piratininga é o marco do nascimento da cidade.

Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, os povos ameríndios já haviam ocupado todo território latinoamericano em 9000 a. C., sendo que em 2000 a. C. já se praticava a agricultura em todos os cantos do país. Na região onde hoje é o Estado de São Paulo, se encontravam as famílias indígenas dos tupi, dos guarani e dos jê, famílias estas compostas de vários troncos linguísticos e inúmeros dialetos. Com a chegada dos portugueses, iniciou-se um processo de genocídio dos indígenas, pois dos três milhões e meio de ameríndios nos idos do século XVI, temos hoje um pouco mais de duzentos mil indivíduos. Além deste extermínio em massa, temos também a escravização (subjulgando-os à exploração colonial), a expulsão de suas terras, o desrrespeito à sua cultura e linguagem (em paralelo ao processo de catequização), além das inúmeras mortes por doenças trazidas pelos colonizadores (uma simples gripe era um vírus fatal para uma sociedade que o desconhecia e não possuía os anti-corpos necessários). A visão portuguesa do Brasil era uma imensa terra sem dono, em eterna primavera e inocência. O gesto de batizarem a todos os lugares com o nome dos santos dos dias (Todos os Santos, São Sebastião, São Vicente, Monte Pascoal) confirma sua idéia de propriedade da terra, enquanto construção sócio-política que hoje conhecemos. Passado quase meio século de escravização indígena, sob defesa dos jesuítas, são criadas diversas leis (reais e eclesiásticas) que negavam a escravização do índio, sendo substituída pelo negro africano (devido aos altos lucros que esta rendia: "vão-se os navios com escravos, retornam-se as especiarias e outros artigos tropicais"). Os negros trazidos da África para o Brasil são, em sua maioria, vindos de Benguela (na costa oeste africana), Moçambique e Mombaça (na costa leste). Para os jesuítas, os negros eram inferiores e, por isto, não se importavam com sua escravidão. Para a corte, tanto importava negro ou índio, contanto que o tráfico de escravos rendesse lucro e se evitasse problemas com a Igreja Católica.

  
A única diferença entre a escravidão indígena e negra na história do Brasil é o lucro.

Assim, a história de São Paulo, como hoje conhecemos, inicia-se como uma interseção de caminhos vindos da Capitania de São Vicente (fundada em 1532 pelo português Martim Afonso de Souza). A escolha do local como povoado, ou seja, ponto de fixação humana, em meio à Mata Atlântica, foi estratégica pelo planalto que se configura como um descanso, após a íngreme subida pela Serra do Mar.


O contraste da Serra da Cantareira com a metrópole contemporânea se deve à sua localização em suas origens.

Os únicos trechos de São Paulo realmente com 450 anos de colonização portuguesa são as imediações do Pátio do Colégio. O Pátio do Colégio era antes apenas um acampamento jesuíta: a edificação começou a ser construída após a primeira missa de São Paulo de Piratininga (ilustrada no topo do texto), em 25 de Janeiro de 1554, sendo concretizada em 1º de Novembro de 1555. Inicialmente era apenas uma pequena casa de jesuítas, medindo 14 por 10 passos (o equivalente a 90 m²): logo após tornaria-se também colégio de jesuítas (motivo de hoje ser conhecido por Pátio do Colégio), enfermaria, cozinha e refeitório. A partir de então, foi cenário das mais importantes atividades educacionais, cívicas, culturais e religiosas ocorridas na cidade. Futuramente, em 1770, o Pátio abrigou a sessão inaugural da Academia Paulista de Letras (outrora conhecida por "Academia dos Felizes"). Em 1882, após reforma, passou a ser o Palácio do Governo. Hoje, torna-se novamente importante para a cidade como centro cultural e histórico, recebendo uma média de 5 ônibus escolares, 40 visitantes brasileiros e 10 estrangeiros ao dia, que buscam um pouco das origens da história da cidade.

 

 
O Pátio do Colégio, acima em ilustração de 1824, e abaixo, a estátua do padre Manoel da Nóbrega e a fachada principal. Note que à direita da ilustração é possível ver o que ainda restou da edificação, como mostra a foto da direita.

Para além desta região, a história da cidade é bem mais recente. Até 1711, São Paulo ainda era uma vila colonial, só então elevada à categoria de cidade por D. João VI. Ainda assim, nos primeiros três séculos de ocupação da cidade, São Paulo não passou de apenas um entreposto comercial, suprindo tropeiros e bandeirantes de mantimentos e equipamentos na sua busca por indígenas (para a catequização e trabalhos agrícolas), quilombos de escravos fugidos e, posteriormente, ouro. Os bandeirantes de São Paulo eram os mais cruéis, sendo Domingos Jorge Velho o responsável pela prisão dos índios cariris e janduís, além da destruição do quilombo de Palmares (na região entre Sergipe e Pernambuco) em 1654. Outros bandeirantes paulistas se destacaram nas bandeiras em busca de ouro, como Antônio Rodrigues de Arzão, que descobriu o metal em Cataguases (Minas Gerais), em 1693, ou Antônio Dias Oliveira, que fundou Vila Rica (atual Ouro Preto, Minas Gerais) em 1698, ou ainda Borba Gato, que em 1700 encontrou ouro em Sabará (também em Minas Gerais). A visão romântica de que os bandeirantes eram heróis paulistas deve-se ao valor da história paulista após a Revolução Constitucionalista de 1932, melhor explicitada adiante.


Gravura do século XVIII, ilustrando os tropeiros e os bandeirantes às margens do rio Tietê

A criação de gado na região de São Paulo, em especial próximo à Sorocaba, visava atender às demandas alimentícia e de animais de carga da mineração e agricultura. Em 1858, com o deslocamento da produção cafeeira do Rio de Janeiro para o Vale do Paraíba e o interior do Estado de São Paulo, a capital tornou-se em ponto de encontro de telégrafos e das estradas de ferro inglesas (com a inauguração da São Paulo Railway em 1960, e da primeira Estação da Luz em 1864) que escoavam a produção agrícola para o porto de Santos - este é o ponto que divide a história paulistana de uma economia colonial e escravocrata para o início de uma ordem liberal de mercados. Neste momento também se funde uma contradição: para a nova elite oligárquica do café, não havia contracenso entre o trabalho escravo (de origem colonial) e o liberalismo econômico (rumo à uma sociedade moderna).

   

        
Acima, a colheita do café, seguido do processo de secagem, ensacamento e transporte nas carroças puxadas por burros.
Abaixo, cenas do Porto de Santos escoando o café paulista para o exterior.

   

Em 1850 é criada a Lei de Terras, defendendo que todas as terras são públicas, só tornando-se propriedade de um indivíduo por venda. Com o término da escravidão, em 1888, estes escravos são acumulados nos cortiços, sem trabalho, visto que a mão-de-obra será trocada por imigrantes europeus (principalmente italianos, mas também de portugueses e espanhóis). Para se ter idéia do número de habitantes que representavam os imigrantes europeus, em 1893, 55% da cidade era de origem estrangeira. Com a Lei de Terras e apoiados pela visão sanitarista, os cortiços centrais foram sendo combatidos pelo Governo e a população empurrada para as periferias, dando início às primeiras favelas.


O bairro do Bixiga, em imagem de 1862: a maioria dos imigrantes italianos e dos ex-escravos fixaram aqui suas habitações

No final do século XIX, o Brasil começa a ter alguns traços mais urbanos. Em 1887, a província de São Paulo possuía 57 cidades e 69 vilas. Os centros urbanos se modernizavam com praças, teatros, hotéis, transporte, iluminação à gás e atividades comerciais. Em 1880, São Paulo e Campinas já possuíam serviço telefônico. Em 1835, São Paulo possuía 95% de analfabetos: em 1887, a porcentagem caíu para 55%. Quase todos os artigos vinham importados da Inglaterra, da pólvora à agulha, passando por mantimentos, calçados e cerveja. Mas todas estas melhorias eram destinadas apenas às elites. Aos pobres e ex-escravos, a vida continuava difícil e miserável.

O poder de São Paulo amplia-se mais com o início da República Velha e a alternância de presidentes dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, representantes das oligarquias agrícolas dos mais ricos fazendeiros do país (período conhecido também como a República do "Café com Leite"). Esta parceria pelo poder seguiu do fim da "República da Espada" em 1894 (com os Marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto) até 1930, quando a crise da Bolsa de 1929 afetou fortemente o poder econômico dos fazendeiros, já que seu café foi desvalorizado e as vendas ao exterior foram diminuídas. Somam-se a isto as inúmeras descontentações dos oligarcas dos demais Estados (que ficaram fora deste joguete do poder), além dos industriais paulistas, que começavam a se fortalecer. O início da industrialização aproveitou a renda e a infraestrutura cafeeira - principalmente as estradas de ferro e as comunicações - e cresceu com a Primeira Guerra Mundial, já que os artigos importados deveriam ser substituídos por nacionais, pois a Inglaterra agora se ocupava principalmente com a indústria bélica. Neste ano, o então presidente Washington Luís, do Partido Republicano Paulista, deveria indicar um sucessor do Partido Republicano Mineiro, mas escolheu Júlio Prestes, também um paulista. Os oligarcas mineiros, descontentes, apoiaram Getúlio Vargas (do Rio Grande do Sul) e João Pessoa (da Paraíba). As eleições deram à Júlio Prestes o cargo do Governo da República (através de voto de cabresto e manipulações eleitorais, que faziam do processo democrático algo não idôneo), mas após sucessivos golpes e o assassinato de João Pessoa, Getúlio Vargas é nomeado Presidente em 3 de Novembro de 1930. Com o populista Vargas, temos os primeiros traços de um Governo Federal investindo maciçamente na industrialização de base.

Mas o conflito entre as oligarquias paulistas e o Governo Federal foram realmente graves. Inconformados com o fim de seu domínio sobre o Governo, reclamam a volta das eleições e da Constituição. O movimento, conhecido como a revolução Constitucionalista de 1932, foi engrossado por estudantes, engenheiros, advogados, médicos e alguns operários. Em 23 de Maio, durante uma manifestação contra o Governo, morreram os estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo Andrade. Em suas homenagens, os paulistas utilizavam da sigla tirada de seus nomes (MMDC) como lema da luta. A revolução inicia-se em 9 de Julho, apenas com o apoio do sul do Mato Grosso. Famílias inteiras se alistavam, inclusive mulheres. Doavam seus bens e jóias de família para a causa. As indústrias paulistas se adaptaram para fornecer material bélico, como lança-chamas, capacetes, granadas e máscaras contra gás. O Governo Federal isolou as tropas paulistas, encerrando com batalhas violentas entre Agosto e Setembro. O conflito teve fim em 2 de Outubro de 1932, com a assinatura da Convenção Militar. Uma nova Constituição foi promulgada em 16 de Julho de 1934, repetindo várias determinações da Carta Magna de 1891, mas garantindo o voto feminino, o voto secreto, várias leis trabalhistas (como salário mínimo, jornada de 8 horas diárias, férias, indenizações e assistência médica), o direito à igualdade e à liberdade política e religiosa e que as riquezas do subsolo brasileiro seriam propriedade estatal.

        
Cartazes exaltando os paulistas a combater Getúlio Vargas, em nome da Constituição.

Com Getúlio Vargas, o Brasil passa a ter sua indústria de base, isto é, produção de materiais que sirvam de base para outras indústrias, como o aço (através da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN), o petróleo e seus derivados (pela Petrobrás), a indústria química (com a Companhia Nacional de Alcalis), energia elétrica (Eletrobrás), os recursos minerais (obtidos através da Companhia Vale do Rio Doce), além da Fábrica Nacional de Motores. Isto abriu caminho para, nas décadas de 1960 e 1970, durante a Ditadura Militar (e o período conhecido como "milagre econômico") houvesse a chegada das indústrias e dos capitais multinacionais, em especial as montadoras de automóveis, muitas delas que se situaram na região metropolitana de São Paulo, conhecida por ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema). O movimento sindical cresceu em paralelo. A cidade começa a se reconfigurar: bairros populares perdem suas características principais e se degradam, seja por intervenções urbanas equivocadas (como o viaduto Costa e Silva, também conhecido como Minhocão, que corta literalmente, isto é, secciona um bairro tradicional, como o Bixiga, e a partir da implantação desta via expressa, o ruído, a poluição e o próprio cenário se comprometem), seja por falta de investimento público (várias administrações investiram praticamente 80% dos recursos da Prefeitura na rica região da marginal do rio Pinheiros, esquecendo o resto da cidade). Mas este e os outros debates sobre a São Paulo de hoje é o assunto do próximo artigo.

     
Cenas de manifestações e greves em defesa dos salários dos operários paulistas.

Imagens Paulistas, no início do Século Passado

" Nessa época as lojas da cidade tinham ganho outra animação, com a frequência de mulheres fazendo suas compras sozinhas. A vida social em São Paulo intensificou-se. Após a proibição dos mergulhos no Tamanduateí e o aparecimento de clubes de natação e regatas às margens do Tietê, o esporte tomou impulso. Por influência dos ingleses, foi introduzido o futebol, logo entusiasmando a população; apareceram as primeiras quadras de tênis e de bola-ao-cesto, e ganharam destaque as corridas de cavalos, em hipódromos recém-construídos. Aos domingos, a principal distração do povo era ir passear no jardim do Ipiranga, onde se divertia andando de carrossel, assistindo aos teatrinhos de bonecos, participando de uma quantidade de jogos e competições. Ia-se a piqueniques, a sessões de circo, a concertos de bandas no coreto do Jardim da Luz, a reuniões dançantes em clubes recreativos, a espetáculos de teatro, de óperas, de operetas.

Como em todas as cidades do Brasil, havia o famoso footing, passeio a pé, numa rua ou numa praça - moças de um lado, rapazes do outro - trocando olhares, sorrisos, bilhetinhos. Foram célebres no passado os footings da rua 15 de Novembro e da Rua Direita. Várias confeitarias haviam-se tornado muito conhecidas, sendo ponto de reunião obrigatória para famílias inteiras, que lá iam tomar sorvetes, saborear doces e ouvir sua orquestra. Os freqüentadores de teatro movimentavam à noite os restaurantes e os cafés, onde tomavam refrescos ou ceavam após os espetáculos. As livrarias mais importantes transformavam-se em local de encontro de escritores, jornalistas e estudantes, para gostosos bate-papos, comentários políticos e larga troca de idéias.

O progresso aumentou dia a dia quando novos hábitos e costumes, trazidos por uma onda crescente de imigrantes, vieram influenciar a vida paulista, tornando São Paulo o modelo de uma cidade dinâmica e cosmopolita, em contínua expansão."
Sérgio Buarque de Holanda, em O lazer em São Paulo no início do século.


Inauguração da primeira linha de bonde para o Bom Retiro, em 12 de Maio de 1900. A primeira linha de bonde de São Paulo data de 7 de Maio de 1900.


Moinho Matarazzo, em 1900.


Alunos da escola Caetano de Campos, em 1901.

 


A Estação da Luz, em seu três momentos, em 1865, em gravura de 1870 e de 1903.


Largo da Sé, em 1904.


Carnavalescos comemorando em 1908, na Lapa.


Inauguração do Teatro Municipal, em 1911.


Regatas no rio Tietê, em 1917.


Ocupação de estudantes em defesa de presos políticos, na delegacia do Cambuci, em 1924.


Carnaval na avenida Paulista, em 1926.

 
Mercado Municipal em dois momentos: à esquerda em 1890, à direita em 1933.

   
O vale do Anhangabaú e seu viaduto do Chá, em 1890 e em 1934.


Agencia dos Correios & Telégrafos, em 1938.


Casamento típico, em 1940.


Partida de futebol no Estádio Municipal do Pacaembu, em 1941.


Palácio das Indústrias, em 1943.


Estação Júlio Prestes, no final da década de 1940.


Avenida São João, em 1951.

Fontes de Pesquisa:

© Revista Eletrônica de Ciências - Número 23 - Janeiro de 2004.