| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 19, Maio / Junho de 2003 | Artigo |
Num trecho de linha férrea próximo da cidade de Paris, apenas um zumbido indica a passagem de um trem de passageiros a quase 300 quilômetros por hora. Numa estradinha de terra batida numa fazenda do interior mineiro, uma estrutura barulhenta de carro de bois passa a menos de 5 quilômetros por hora, produzindo um ranger quase sonolento provocado pelo atrito entre a roda de madeira e o eixo de apoio. A única semelhança entre esses dois acontecimentos, converge talvez, para o fato de simplesmente andarem sobre rodas.
Mais depressa, mais devagar, milhões de rodas, pequenas ou grandes, funcionam em todo o mundo, transformando a vida em movimento. Um dos principais indicadores do progresso consumista de um país, costuma ser medido pela facilidade com que seus habitantes podem se locomover e transportar os produtos de seu trabalho ou para seu consumo. Em outras palavras: quantas rodas esse país faz girar e com qual rapidez?
A diferença que a roda, considerado como
sendo o maior invento fundamental da história, trouxe para o
destino humano é incalculável. Um pouco de
matemática ajudará a explicar tal façanha. Um
homem adulto e treinado percorre num dia de caminhada, cerca de 30
quilômetros, e a carga máxima que consegue carregar
é cerca de 40 quilos, além do seu próprio peso.
Com
a domesticação de animais, por volta de 5.000 a.C., a
capacidade de carga no lombo de bestas aumentou para 100 quilos. A
tração animal aumentou ainda mais a capacidade de carga
para 1.200 quilos puxados por uma carreira de bois. Acredita-se que os
egípcios usaram de artifícios como grandes roletes de
madeira para transportar por quilômetros, os enormes blocos de
granito e de pedra para a construção das pirâmides,
inventando também o que se chama hoje de rota de transportes, ou
simplesmente estradas.
Na verdade, a invenção da roda
é motivo de discussão entre os grandes historiadores de
todos os tempos. Alguns sustentam que essa peça de tamanha
simplicidade, foi a maior criação do homem estudando o
movimento do astro Sol, como se ele rodasse ao redor da Terra. Por
terem sido fabricadas em madeira, as primeiras rodas já foram
certamente destruídas pela ação do tempo.
Sem a roda, o homem não iria muito longe.
As quatro principais fontes de energia que o homem utiliza para sua
existência são fundamentadas na roda: a água, a
energia elétrica, o animal e o vento. O simples carrinho de
mão inventado pelos chineses, cerca de 200 a.C., conduz sete
vezes mais carga e passageiros do que o ombro humano. A bicicleta
criada na França em 1645, permitia velocidades até
três vezes maiores do que a de um homem caminhando pausadamente.

A roda: a primeira grande
invenção
da humanidade.
Além de revolucionar os meios de transportes, a roda possibilitou outro grande salto para a tecnologia – o movimento controlado por rotação. Na Mesopotâmia, há milhares de anos, os primeiros discos de madeira usados pelo homem para trabalhar o barro, talvez tenha sido uma das primeiras criações empregando a roda no sentido explícito da palavra. No século XIV, apareceram simultaneamente em diferentes regiões da Europa, como França e Inglaterra, as primeiras rodas de tecelagem enxertadas com finas agulhas para desfiar o algodão. Desde então, novos engenhos baseados no mesmo princípio não pararam de surgir, porém, cada vez mais complexos. Aproveitando a descoberta de que uma roda de maior diâmetro leva mais tempo para dar uma volta completa do que uma roda pequena, o homem também descobriu a teoria da velocidade centrípeta. Inventaram-se os relógios com rodas dentadas que até hoje encantam as mais belas catedrais do mundo todo; as máquinas a vapor; a locomotiva e o automóvel.
Rodas e revoluções andam juntas
há muito tempo. Numa era de colossais conquistas
tecnológicas entre 8.000 e 5.000 a.C., na faixa de países
semi-áridos entre os rios Nilo, localizado na África e
Ganges, na Ásia, o homem inventou o arado, o barco à
vela, os processos de fundição de ferramentas,
jóias e o calendário solar. Todos estes inventos baseados
no princípio da roda. A primeira indicação da
figura de uma roda registrada numa placa de argila, auxiliando um meio
de transporte humano foi na Suméira em 3.500a.C. Atualmente, as rodas de bicicleta já
são feitas de alumínio, kevlar ou fibra de carbono.
É o homem rinventando a invenção. Após a
descoberta da roda pelos sumérios, a notícia se espalhou.
Gregos, romanos e egípcios há mais de 2.000 a.C. criaram
então novos modelos, com raios ao invés de uma placa de
tábuas, para conduzir suas bigas de guerra e revestidas com
pedaços de metal fundido para resistirem aos fortes impactos
provocados pelas colisões. Enfim, sempre foram modificando a
idéia original conforme suas necessidades e abrindo largos
espaços para o uso da roda no seu cotidiano. Os celtas, por
exemplo, modificaram os carros romanos e inventaram o sistema de eixo
dianteiro giratório, capazes de dar maior direção
em curvas menos angulosas. O Renascimento, movimento de
revolução nas artes, ciências, medicina e
literatura
que ocorreu por toda a Europa no século XV, fez surgir os
famosos cabriolés, diligências de tração
animal com cabine fechada para conduzir a aristocracia européia
e protegê-la do mau tempo ou da poeira das rudimentares estradas
de terra.
Por volta de 1850, começava o declínio da tração animal e iniciava-se a era da tração a vapor, reescrevendo o papel da roda. Não demorou muito, inventou-se então as rodas fabricadas totalmente de ferro forjado no final do século XIX. Barcos a vapor e locomotivas, além de servirem de meios de transporte de carga, eram o fascínio de milhares de bens-aventurados da época. No início do século XX, o veterinário inglês John Boyd Dunlop criou o primeiro aro pneumático. Nada mais era do que um aro metálico revestido com uma câmara de couro costurado e cheio de ar, o qual servia para amenizar os sacolejos provocados pelas rodas de ferro sobre as estradas de pedra, que imediatamente foram introduzidos nos veículos automotivos fabricados por Henry Ford.
O cinema mostrou toda a força
dessa
invenção no lendário filme "Tempos Modernos", de
1936, brilhantemente estrelado por Charlie Chaplin. Daquela
época até os dias atuais a roda nunca mais parou de
movimentar a humanidade.