Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 17, Março de 2003 Artigo

Alimentos transgênicos: solução ou problema?

Regina Helena Porto Francisco
Professora Dra. do IQSC-USP - Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo
e-mail: porto@iqsc.usp.br

A sucessão presidencial no Brasil trouxe à tona uma questão importante que precisa ser debatida e compreendida para que se possa tomar a melhor decisão. Trata-se dos alimentos transgênicos, que são obtidos de organismos (plantas e animais) geneticamente modificados, obtidos por transferência do gene de uma espécie para outra ou de uma variedade para outra (da mesma espécie).

Nos Estados Unidos e na vizinha Argentina há o cultivo de plantas geneticamente modificadas, que viabilizam a produção mais barata, menos poluente e mais abundante de alimentos. A legislação brasileira entretanto proíbe o cultivo destes vegetais, exceto de modo absolutamente controlado, com o objetivo de pesquisa.

Recentemente foi identificado um movimento originado fora do Brasil que propõe o cultivo destes vegetais geneticamente modificados como parte do esforço de combate à fome. Aparentemente, entre os propositores estão multinacionais com interesse econômico no assunto.

Seres geneticamente modificados causam enorme repulsa em pessoas muito bem-intencionadas, participantes de movimentos preocupados com o bem-estar social e com o ambiente. Entretanto os mesmos seres são muito bem aceitos entre geneticistas e pesquisadores muito sérios e competentes, que atuam em instituições públicas e sem qualquer interesse financeiro.

Alguns desses cientistas vêem nos alimentos transgênicos a possibilidade de uma revolução na produção de alimentos, equivalente à "Revolução Verde" que ocorreu no século passado com o início do uso de fertilizantes químicos, que viabilizou um aumento enorme na produção de comida. A produção de transgênicos é vista, assim, como uma nova tecnologia que permite evitar ou reduzir uma porção de etapas custosas, difíceis e demoradas.

O melhoramento genético tradicional começou a ser feito há 10 mil anos. O homem escolhia as melhores plantas ou animais e promovia a reprodução. O desenvolvimento da genética permitiu então que se fizesse isso de modo mais racional, eficiente e profissional. Atualmente, na seleção tradicional, é feita a observação de uma característica desejável (por exemplo, uma fruta mais doce) e a localização do gene que a determina. Então, por cruzamento, procura-se obter indivíduos descendentes que possuam os genes que dão este característica.

No entanto, junto com esse gene desejado, vão centenas de outros sobre os quais não há nenhum controle. Isso pode criar uma vulnerabilidade na nova variedade criada. Por exemplo, a árvore dessa fruta mais doce pode exigir mais água para crescer. Além disso, o processo é demorado, pois depende do ciclo de reprodução daquele organismo.

Com os transgênicos é possível controlar e induzir situações, num processo mais rápido e eficiente, pois escolhe-se apenas o pedaço de DNA que é responsável pela característica desejada e coloca-se os novos genes no outro indivíduo, passando esse "retalho" a fazer parte do seu genoma.

A agronomia brasileira é uma das mais avançadas e produtivas no mundo. Entretanto, como o Brasil não tem inverno rigoroso, os solos são usados 365 dias por ano, sem interrupção. O desgaste é muito grande. São 12 meses por ano de sol e chuva e todos os agricultores aproveitam para aumentar a produção. Devido à posição geográfica, os solos das regiões de clima temperado, como os da Europa e da Ásia têm sido explorados há, pelo menos, 5 mil anos por civilizações humanas, mas ele descansa no inverno.

No Brasil há inúmeros problemas. Nosso país ocupa uma faixa de terra na zona intertropical, e praticamente não ocupa zonas de clima temperado. Na Amazônia há sol e chuva suficientes para a produção, mas o solo é pobre. O Nordeste tem sol e solo rico em nutrientes para a agricultura, mas não tem chuvas o bastante. Muitos pesquisadores defendem então que sejam usadas as ferramentas que as ciências podem oferecer para aumentar a produção de alimentos no país.

O caso mais famoso de produção de alimentos transgênicos envolve uma semente de milho produzida e comercializada por uma companhia multinacional. Esta variedade de milho é resistente a um multi-herbicida, altamente eficiente, desenvolvido e comercializado pela mesma companhia. Este herbicida poderia ser aplicado e eliminaria todas as pragas, deixando apenas o milho, diminuindo a quantidade total de agrotóxicos utilizados na lavoura e os custos totais de mão-de-obra e produção.

Naturalmente há enormes interesses comerciais embutidos no processo, tanto desta companhia, que em pouco tempo poderia deter o monopólio da semente de milho, como de outras firmas, que perderiam parcela importante do mercado. Entretanto muitas outras possibilidades acompanhariam o cultivo de organismos geneticamente modificados, como o desenvolvimento de plantas resistentes a pragas pouco pesquisadas, de animais resistentes a doenças, de organismos com teor nutritivo mais alto e valioso para a dieta humana, entre muitas outras possibilidades.

O caso de maior sucesso nesta área é a fabricação de insulina humana por bactérias alteradas geneticamente, que recebem o gene responsável pela produção desta proteína e passam a produzi-la, num processo que trouxe enormes benefícios aos diabéticos.

Não é possível adotar atitudes fundamentalistas com relação aos organismos geneticamente modificados, principalmente quando se tratar da produção de alimentos ou de medicamentos. É preciso que a questão esteja permanentemente aberta, inclusive para que o país não perca uma importante oportunidade de impulsionar seu desenvolvimento.



© Revista Eletrônica de Ciências - Número 17 - Março de 2003.